O Brasil vive hoje uma situação delicada na política internacional, que pode ser resumida como uma verdadeira encruzilhada geopolítica. De um lado, o país defende oficialmente o direito internacional, o multilateralismo e a solução pacífica dos conflitos. De outro, precisa lidar com um mundo cada vez mais marcado pela força das grandes potências, onde regras existem, mas nem sempre são respeitadas por quem tem mais poder.
O BRICS — grupo do qual o Brasil faz parte junto com Rússia, China, Índia e África do Sul — nasce justamente como uma alternativa à hegemonia dos países ricos do Ocidente. Ele não é uma aliança baseada em valores morais ou princípios éticos comuns, mas um arranjo estratégico, criado para ampliar o espaço de manobra dos países emergentes. Isso é importante para o Brasil, porque amplia mercados, cria fontes alternativas de financiamento e evita um alinhamento automático aos Estados Unidos e à Europa.
O problema é que esse arranjo tem contradições profundas. A mais evidente é a invasão da Ucrânia pela Rússia. Do ponto de vista do direito internacional, trata-se de uma violação clara da soberania de um Estado. Se os princípios defendidos pelo Brasil e pelo próprio BRICS fossem aplicados de forma rigorosa, a Rússia deveria ser duramente questionada. No entanto, isso não acontece. A razão é simples: o BRICS não funciona como um tribunal moral, mas como um espaço de interesses. A Rússia, sendo uma potência nuclear, age prioritariamente em função de sua segurança e de seus objetivos estratégicos, e utiliza o multilateralismo quando lhe convém. Nesse sentido, ela não é um parceiro confiável do ponto de vista normativo, embora seja previsível do ponto de vista do poder.
O Brasil percebe essa incoerência, mas opta por uma postura de neutralidade pragmática. Não porque concorde com a agressão russa, mas porque condenar frontalmente abriria precedentes que podem, no futuro, se voltar contra países médios como o próprio Brasil. Além disso, romper com o BRICS significaria perder influência, alternativas econômicas e capacidade de negociação internacional. Daí a constatação dura, porém realista: ruim com o BRICS, pior sem o BRICS.
Esse dilema ficou ainda mais evidente com o convite feito pelos Estados Unidos para que o Brasil participe de um chamado “Conselho de Paz” liderado por Donald Trump. Na prática, essa iniciativa funciona como uma espécie de estrutura paralela à ONU, controlada pelos interesses norte-americanos. Aceitar esse convite sem condições colocaria o Brasil em rota de colisão com sua tradição diplomática e com seus parceiros do Sul Global, além de fragilizar o discurso em favor do multilateralismo. Recusar de forma direta, por outro lado, também tem custos diplomáticos.
Por isso, o Brasil tende a buscar uma terceira via: não romper com ninguém, mas também não se submeter. Participa do BRICS sem idealizá-lo, dialoga com os Estados Unidos sem alinhar-se automaticamente e insiste, no discurso, na centralidade da ONU e do direito internacional, mesmo sabendo que esses princípios são frequentemente desrespeitados pelas grandes potências.
No fundo, o Brasil age como um país que precisa das regras, mas vive em um sistema internacional onde quem manda muitas vezes não as segue. Essa posição é desconfortável, moralmente imperfeita e cheia de tensões, mas reflete os limites reais de um país que não é uma superpotência, mas também não aceita ser irrelevante. É menos uma escolha ideal e mais uma tentativa constante de evitar o pior em um mundo cada vez mais instável.