Impressiona como, quando o poder público decide “investir em cultura”, quase sempre o dinheiro segue o mesmo caminho: grandes shows de artistas sertanejos já consagrados, com cachês milionários pagos por prefeituras, muitas vezes por meio de emendas parlamentares ou do orçamento municipal.
Raramente esses recursos chegam a artistas locais, grupos de teatro, cultura popular, música instrumental, corais, hip hop, projetos periféricos ou iniciativas formativas.
Esse padrão desmonta a narrativa de que a Lei Rouanet ou o financiamento cultural seriam usados para privilegiar artistas “progressistas”. Os dados mostram outra realidade. Os nomes que aparecem com mais frequência associados a grandes volumes de recursos públicos são artistas extremamente populares e comerciais, como Gusttavo Lima, Bruno & Marrone, Leonardo, Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano, entre outros — artistas que já dominam o mercado e não dependem de incentivo estatal para existir.
O problema central não é ideológico, mas estrutural e ético. A lógica eleitoral e de visibilidade leva gestores públicos a apostar no “evento de massa”, que rende palco cheio, foto bonita e capital político imediato, enquanto a diversidade cultural fica em segundo plano. Cultura passa a ser tratada como entretenimento caro, e não como política pública de formação, acesso e valorização da identidade local.
A crítica legítima, portanto, não é contra a cultura nem contra artistas específicos, mas contra um modelo que usa dinheiro público para reforçar o topo do mercado, em vez de democratizar o acesso aos recursos.
Cultura não é só espetáculo. É formação, diversidade, identidade e oportunidade. Dinheiro público deveria servir a isso — não a enriquecer ainda mais quem já está no auge.
Artistas mais beneficiados segundo levantamentos recentes. Com base em levantamentos divulgados por fontes jornalísticas e políticos brasileiros sobre valores captados e autorizados por meio da Rouanet e mecanismos públicos relacionados (como também emendas parlamentares e contratações públicas que muitas vezes se vinculam a projetos culturais), os maiores beneficiários divulgados recentemente incluem principalmente artistas da música sertaneja, com cifras acumuladas ao longo dos últimos anos:
Gusttavo Lima – cerca de R$ 52 milhões
Bruno & Marrone – cerca de R$ 45 milhões
Leonardo – cerca de R$ 42 milhões
Chitãozinho & Xororó – cerca de R$ 38 milhões
César Menotti & Fabiano – cerca de R$ 35 milhões
Zezé di Camargo & Luciano – cerca de R$ 32 milhões
Eduardo Costa – cerca de R$ 28 milhões
Amado Batista – cerca de R$ 23 milhões
Henrique & Juliano – cerca de R$ 20 milhões
Fernando & Sorocaba – cerca de R$ 19 milhões