Pra tudo há um tempo - Dilemas contemporâneos

Quando refletimos sobre situações de sofrimento causadas por agentes externos, como a perda de um membro ou um estupro seguido de gravidez, percebemos que, embora as circunstâncias sejam diferentes, o elemento comum é a injustiça que recai sobre quem não tem culpa. No caso da perda de uma mão em um acidente, a pessoa se vê diante de uma ferida permanente. Não pediu por aquilo, não teve como evitar, e mesmo que existam recursos para amenizar a perda, como próteses ou reabilitação, a marca permanecerá. Essa experiência exige resiliência, aceitação e fé: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça” (Isaías 41:10). A dor é real, mas Deus oferece força para suportá-la e caminhar adiante.

No caso do estupro que resulta em gravidez, a vítima também enfrenta um trauma profundo, sem culpa própria. A gravidez, fruto de um ato cruel, não é algo que ela tenha desejado. No entanto, sob a perspectiva católica, o feto no ventre é uma vida inocente, criada à imagem de Deus: “Porque tu formaste o meu interior; tu me teceste no ventre de minha mãe” (Salmo 139:13). Assim, interromper essa vida não elimina a injustiça sofrida pela vítima, mas causa outra injustiça, agora contra uma vida inocente. Diferentemente da perda da mão, a gravidez tem um prazo determinado de nove meses, e durante esse tempo, com apoio psicológico, médico e espiritual, a vítima pode encontrar formas de enfrentar a dor e reconstruir sua vida. Ela também tem a opção de entregar o nascituro para adoção, se assim entender, preservando a vida da criança e ao mesmo tempo protegendo seu próprio bem-estar emocional e futuro.

A comparação evidencia que, mesmo diante do sofrimento extremo, a ética católica orienta a proteção da vida inocente, mostrando que a verdadeira justiça não se mede apenas pelo alívio imediato da dor, mas pelo respeito à dignidade de todos os envolvidos. Jesus nos chama a confiar na providência e a agir com compaixão: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mateus 5:6) e “Não matarás” (Êxodo 20:13) — princípios que nos lembram da importância de preservar a vida mesmo diante do sofrimento alheio. A fé ensina que o sofrimento pode ser unido ao de Cristo, trazendo sentido e transformação, enquanto a destruição de uma vida inocente gera uma ferida moral que não traz verdadeira solução.

Portanto, assim como alguém que perdeu uma mão aprende a viver com a marca da perda e a buscar forças em Deus, a vítima de estupro que engravida também é chamada à resiliência, à esperança e ao cuidado, reconhecendo que a vida do inocente no ventre deve ser respeitada, enquanto se recebe apoio e se reconstrói a própria vida com fé, paciência e amor. E se necessário, a adoção surge como uma forma de conciliar proteção da vida com a preservação do bem-estar da mãe, permitindo que a criança seja acolhida em um lar seguro.

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