A Renovação Carismática Católica sempre foi reconhecida como um movimento de profunda experiência com o Espírito Santo, marcado pela conversão, pela oração e pela unidade da Igreja. No entanto, ao longo dos últimos anos, tornou-se cada vez mais evidente uma crise silenciosa, especialmente dentro do Ministério Fé e Política: a política deixou de ser instrumento e passou a ocupar o centro, sobrepondo-se à fé.
Esse deslocamento não é apenas estratégico, mas espiritual. Quando a política passa a orientar a vivência da fé, ocorre uma inversão perigosa. Em vez de a fé iluminar a ação no mundo, ela passa a ser moldada por ideologias. E isso se refletiu de forma clara na Renovação Carismática Católica, onde muitos passaram a dar mais ouvidos a influenciadores, gurus e até líderes religiosos externos à tradição católica do que à própria Igreja.
O resultado foi uma contaminação do ambiente espiritual. Discursos de ódio, polarização, ataques e julgamentos públicos começaram a ganhar espaço — algo incompatível com a vida no Espírito. A unidade, que deveria ser marca essencial da RCC, foi substituída por divisões, contendas e suspeitas. E onde há divisão, há também o enfraquecimento da ação do Espírito Santo.
As consequências disso foram profundas. Muitos fiéis, inclusive aqueles que sustentam com sacrifício obras de evangelização, sentiram-se excluídos, julgados e até condenados por não aderirem a determinadas visões políticas. Criou-se, na prática, uma espécie de filtro ideológico, que passou a definir quem “pertence” ou não. Isso fere diretamente a identidade da Igreja, que é universal e não pode ser reduzida a um posicionamento político.
Além disso, o impacto externo foi inevitável. Aqueles que já eram indiferentes ou desconfiados em relação à Renovação Carismática Católica encontraram motivos para se escandalizar. A associação entre fé e radicalização política comprometeu o testemunho cristão. Em muitos casos, lideranças ou membros passaram a atacar bispos e até o próprio Papa Francisco, gerando ainda mais confusão e afastamento.
Internamente, o que se viu foi o arrefecimento espiritual. Menos oração, menos discernimento, menos escuta de Deus. A militância tomou o lugar da espiritualidade. E quando isso acontece, o movimento perde sua essência, porque se desconecta da sua origem: o Espírito Santo.
Outro ponto que não pode ser ignorado é a omissão — e em alguns casos, a aparente conivência — de lideranças. A ausência de correção clara diante de excessos permitiu que discursos inadequados se normalizassem. Quando não há direção firme, vozes mais radicais acabam ocupando o espaço e moldando o ambiente.
Diante desse cenário, é necessário um retorno urgente à identidade da Renovação Carismática Católica. O Ministério Fé e Política precisa reencontrar seu propósito: formar consciências à luz da fé, e não da ideologia. A política pode e deve existir como expressão da vivência cristã no mundo, mas jamais como substituta da fé.
O que não pode se repetir é o uso da fé como ferramenta de disputa, a absolutização de ideologias e a quebra da unidade da Igreja. É preciso renunciar à linguagem agressiva, ao julgamento precipitado e à divisão. E, sobretudo, é necessário recuperar aquilo que sempre sustentou a RCC: oração, formação sólida, comunhão com a Igreja e fidelidade ao Magistério.
Sem unidade, não há ação do Espírito. Sem fidelidade, não há fruto duradouro.
A Renovação Carismática Católica só voltará a ser plenamente aquilo que é chamada a ser quando Cristo voltar ao centro, quando o Espírito Santo for novamente o protagonista e quando a política retornar ao seu devido lugar: subordinada à fé, e nunca acima dela.